Percepção e recompensa
O cérebro da atração: o que acontece quando alguém nos interessa
Não existe um único centro do desejo. Redes de percepção, atenção e motivação participam da experiência de sentir atração.
Uma pessoa chama nossa atenção, e a experiência parece imediata. Por trás dessa rapidez, o cérebro processa informação visual junto de relevância emocional e motivação. A pesquisa procura identificar os sistemas envolvidos, mas suas imagens precisam ser interpretadas dentro do método usado.
Redes, não um botão
Estudos de neuroimagem utilizam tarefas e estímulos para comparar padrões de atividade cerebral. No campo da atração, muitas pesquisas mostram imagens de conteúdo sexual e observam respostas em redes relacionadas à percepção, emoção, motivação e recompensa. 10
Participar de uma rede não equivale a comandar sozinho o desejo. A atividade de uma região pode aparecer em diversas experiências. Ver um ponto destacado em uma imagem não permite ler exatamente o que a pessoa está sentindo.
Homens e mulheres usam sistemas semelhantes?
Uma metanálise de estudos de neuroimagem encontrou ampla sobreposição das redes associadas a estímulos sexuais visuais em homens e mulheres. Uma reanálise posterior contestou parte da interpretação sobre as diferenças entre os sexos. 10, 11
O conjunto permite rejeitar a simplificação de que somente homens respondem visualmente. Ainda assim, não autoriza afirmar que todos os cérebros, ou todas as experiências de homens e mulheres, sejam idênticos.
As tarefas, os estímulos, o tamanho das amostras e as análises influenciam o resultado. A própria discussão entre estudos ajuda a mostrar como o conhecimento científico é revisado.
Paixão e motivação
Pesquisas sobre paixão romântica também encontram atividade em regiões associadas a recompensa e motivação quando participantes observam a pessoa amada. Um estudo conhecido, de 2005, investigou uma amostra pequena de pessoas intensamente apaixonadas. 12
Essa observação não transforma amor e atração sexual em sinônimos. Também não significa que uma única substância explique todas as formas de vínculo. A neuroimagem identifica associações em uma situação específica.
E a dopamina?
É frequente encontrar a frase de que dopamina causa amor. Ela comprime processos distintos em uma explicação atraente, porém insuficiente. Investigar sistemas de recompensa ajuda a compreender a motivação; não oferece um diagnóstico químico completo de uma relação.
Perguntas melhores são: qual experiência foi estudada, em que momento, com qual tarefa e em comparação a quê?
O que uma imagem cerebral não pode decidir
Uma medida de laboratório não define consentimento, orientação sexual ou a compatibilidade entre duas pessoas. Também não substitui o relato de quem vive a experiência.
A contribuição da neurociência é mostrar que percepção e motivação se conectam em sistemas distribuídos. Ela ganha valor quando a explicação preserva os limites das medidas, em vez de apresentar um mapa cerebral como resposta final para quem vamos desejar.
Fontes desta matéria
- [10] Mitricheva et al. (2019). Neural substrates of sexual arousal are not sex dependent. PNAS. DOI 10.1073/pnas.1904975116.Metanálise de neuroimagem; consultar junto à crítica metodológica seguinte.
- [11] Poeppl, Sakreida e Eickhoff (2020). Neural substrates of sexual arousal revisited: Dependent on sex. PNAS. DOI 10.1073/pnas.1915927117.Reanálise que contesta a conclusão sobre ausência de diferenças entre os sexos.
- [12] Aron et al. (2005). Reward, motivation, and emotion systems associated with early-stage intense romantic love. Journal of Neurophysiology. DOI 10.1152/jn.00838.2004.Estudo de paixão romântica com pequena amostra; não é medida direta de uma substância do amor.