Não temos acesso direto ao que cada ser humano sentia no início dos tempos. Objetos, textos e arquivos preservam representações e experiências registradas. São fontes valiosas, mas raramente permitem reconstruir o desejo de toda uma população.

Pré-história: uma imagem não explica todos os desejos

A Vênus de Willendorf tem cerca de 29.500 anos segundo o museu que a conserva. A escultura mostra uma representação corporal feminina. Não demonstra um padrão universal de beleza, uma preferência de todos os homens ou uma função exclusivamente erótica. 32

Interpretar um objeto exige conhecer seu contexto e admitir o que não foi preservado.

Antiguidade: registros de atração entre pessoas do mesmo sexo

No século IV a.C., O Banquete, de Platão, reuniu discursos sobre amor. O discurso atribuído a Aristófanes inclui homens atraídos por homens e mulheres por mulheres. Trata-se de literatura filosófica, com uma narrativa mítica, não de uma explicação científica da orientação. 33

O registro mostra que essas experiências eram descritas na Antiguidade. Não significa que os gregos utilizassem as mesmas identidades e categorias que empregamos hoje.

Brasil colonial e Japão: contextos diferentes

Estudos de documentos inquisitoriais investigam relações entre mulheres no Brasil colonial. Os arquivos registram práticas e repressão, mas foram produzidos por instituições de perseguição e não funcionam como uma amostra neutra da população. 34

No Japão do período Edo, obras analisadas pela National Gallery of Victoria documentam representações de desejo e relações entre pessoas do mesmo sexo. Imagens têm autoria, público e ambiguidades; não são fotografias diretas de uma orientação universal. 35

1868 e 1869: surgem palavras, não a atração

Károly Mária Kertbeny empregou a terminologia em correspondência em 1868 e depois em publicações, em 1869. Esses marcos pertencem à história das palavras e classificações. Não são o nascimento da atração por pessoas do mesmo sexo. 36

Uma nova categoria pode mudar como experiências são descritas, organizadas ou reconhecidas publicamente.

O século XX: pesquisa, mobilização e classificação

Os relatórios Kinsey de 1948 e 1953 ampliaram a pesquisa empírica do comportamento sexual. Suas amostras e métodos precisam ser considerados; não eram censos universais. 37

Stonewall, em 1969, tornou-se um marco do movimento por direitos nos Estados Unidos. No Brasil, o jornal Lampião da Esquina, publicado de 1978 a 1981, preserva debates, linguagem e reivindicações. São marcos de mobilização e visibilidade, não da origem da orientação. 38, 40

A Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade em si da classificação de transtornos em 1973. A OMS deixou de classificá-la como transtorno mental em 1990. No Brasil, o histórico do CFP registra a mudança classificatória do CFM em 1985 e a Resolução CFP 01/99. 39, 41, 42

Do século XXI às pesquisas atuais

Estudos genéticos e levantamentos populacionais investigam dimensões diferentes: comportamento, identidade e atração. O grande estudo genético de 2019 não identificou um gene único determinante. Pesquisas atuais de aparência continuam testando curvas, proporções e contexto. 24, 5, 7

As mudanças de linguagem, direitos e disposição para se declarar afetam o que conseguimos observar. Não é possível atribuir todo aumento de visibilidade a uma única causa.

Como ler esta linha do tempo

Pergunte sempre o que a fonte preserva: uma representação artística, um relato, uma classificação médica, uma pesquisa ou uma mobilização política. Atração, identidade e visibilidade têm histórias relacionadas, mas diferentes.

O passado contém registros antigos de diversidade. O presente oferece novos métodos e mais oportunidades de declaração. Nenhum desses marcos permite marcar uma década em que a homossexualidade começou.